A tentação no deserto

 

Era tradicional, na cultura judaica, os homens santos buscarem lugares ermos para longas meditações.

Esses períodos de solidão, marcados pelo contato mais intimo com a natureza e por frugal alimentação, quase um jejum permanente, ensejavam um despertamento de forças espirituais que faziam deles autênticos taumaturgos, dotados de grande força moral e notáveis poderes psíquicos. Algo semelhante ao que fazem, desde a mais remota antigüidade, os faquires hindus, que mortificam o corpo para enrijecer o Espírito.

Observando a tradição, logo após seu encontro com João, o Batista, às margens do rio Jordão, Jesus internou - se no deserto. Ali teria permanecido quarenta dias segundo o Evangelista Lucas (Capitulo IV). Enfraquecido e faminto, foi visitado pelo demônio, que lhe disse: “Se és filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães.

Jesus lhe respondeu: Esta escrito: "Nem só de pão viverá o homem." O diabo o transportou a Jerusalém e colocando-o no pináculo, o ponto mais alto do templo, disse - lhe: “Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito que ele ordenou a seus anjos tenham cuidado contigo e te sustentem nas mãos para não tropeçares em alguma pedra”.

Jesus replicou: Também está escrito: "Não tentarás o Senhor teu Deus."

O diabo o transportou, ainda, a um monte muito alto, donde lhe mostrou todos os reinos do mundo com sua glória e lhe disse: “Dar-te-ei tudo isso se, prosternando-te, me adorares”.

Ordenou - lhe Jesus: “Afasta-te, Satanás, pois está escrito: "Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás."

A narrativa termina com a informação de que o demônio retirou-se e vieram os anjos para servir a Jesus.

Temos aqui curiosa passagem evangélica. Um interessante dialogo entre Jesus e o diabo. As respostas do Mestre são inteligentes citações do Velho Testamento, contrapondo-se às propostas do demo. Não obstante, recende a fantasia. Certamente não aconteceu como está registrado. Talvez nem mesmo tenha acontecido. É fácil chegar a essa conclusão. Comecemos pela figura do demônio. Como personificação do mal, que se contrapõe aos programas do Grande Criador, é uma invenção dos teólogos medievais. Segundo eles, os demônios seriam anjos que pecaram antes da criação de Adão. Por castigo foram marginalizados.

Revoltados, instalados no inferno, região de tormentos inextinguíveis (os antigos o situavam no centro da Terra), empenham-se em torturar as almas dos que se deixam seduzir por suas sugestões malignas. Embora as afirmativas freqüentes de figuras representativas da ortodoxia religiosa, confirmando sua existência, muitos fiéis, principalmente aqueles que cultivam o saudável hábito de usar a inteligência, não acreditam no diabo.

Para os teólogos isso seria trama do próprio demo. Convencendo os homens de sua inexistência, seria mais fácil de envolve-los em suas maquinações sinistras. Contudo, eles próprios são responsáveis pela descrença, porquanto alimentam fantasias que poderiam atender às necessidades do passado mas não satisfazem à racionalidade do presente.

Na Idade Média chegou-se à elaboração de catálogos de classificação dos demônios, com desenhos grotescos em que eles se apresentam com chifres, rabo e cascos de bode. Para a mentalidade atual tais idéias são ridículas, infantis e somente as pessoas mais ingênuas ainda as admitem.

Sabe-se que existem Espíritos profundamente comprometidos com o vicio e com o crime, enfermos morais que, por estranho desvio, inspirado na rebeldia sistemática, se comprazem em perseguir e prejudicar os homens. Longe estão, entretanto, de representar um poder constituído, imutável, capaz de ameaçar a ordem universal. Como todos os filhos de Deus, eles também estão sob a tutela das leis divinas, cujas sanções promoverão, inexoravelmente, o despertar de suas consciências, impondo - lhes a própria renovação.

Por extensão, qualquer pessoa que se comprometa com o mal, prejudicando o próximo com a mentira, a prepotência, a agressividade ou a indução aos vícios e as paixões, estará agindo diabolicamente. Mas a destinação de todos nós, espíritos encarnados e desencarnados, bons e maus, viciados e virtuosos, é a angelitude.

Longo e penoso caminho espera aqueles que tentam negar sua condição de filho de Deus. Enfrentarão milenárias lutas e acerbos sofrimentos, em expiações redentoras. Mais cedo ou mais tarde terão de trilha-lo, porque esta é a vontade do Criador, que jamais falha em seus objetivos. Quando analisamos esta questão, entendemos bem por que Jesus, na cruz, pediu a Deus que perdoasse seus algozes, argumentando que eles não sabiam o que estavam fazendo.

Se aquele que se compromete com o mal tivesse noção dos sofrimentos que o esperam, mudaria de imediato sua orientação de vida. Tão fantasiosa quanto a existência do diabo dedicado ao mal eterno é a idéia de que ele tenha tentado a Jesus. Inteligente como o descrevem, saberia que ninguém pode ser induzido ao mal, senão pelo mal que guarda em seu próprio "coração".

Se a oportunidade faz o ladrão, como diz o velho ditado, devemos considerar que somente o ladrão a enxerga, inspirados em suas tendências. Se, num restaurante, deixarmos sobre a mesa um pacote de dinheiro, muitas pessoas passarão por ali indiferentes. Mas aquele que costuma apropriar-se de bens alheios, logo pensará numa forma de aproximar-se sorrateiramente e levar as notas. Somos tentados por nossas próprias inferioridade.

Partindo desse principio, jamais alguém poderia tentar a Jesus com perspectivas de poder, glória e riqueza. Espírito puro e perfeito, situava-se acima dos interesses e das paixões que empolgam a Humanidade. Podemos, pois, considerar esta passagem evangélica como engenhosa interpolação. Quando muito, trata-se de uma alegoria apresentada por Jesus, tomada à conta de experiência pessoal. Se pretendemos evoluir o mundo é indispensável que cultivemos pureza e virtude.

 

Helcius Klain

Oficina de Lowtons Gonçalves Ledo N.o 16

Bonito - MS